Fora o fato de ter que realizar o exame nua, ainda me preocupava o fato de verem o cocô nos meus intestinos ou o arroz com feijão recentemente ingeridos no meu estômago. Mas tudo isso não passava de palhaçada, e minha irmã já tinha me assegurado que seria um exame muito legal, cheio de barulhos engraçados.
Cheguei de sangue doce. A moça me disse para tirar a roupa na cabine e colocar um avental e que me daria até um cobertor caso eu estivesse com frio. Imaginei que o exame não seria muito longo e dispensei a coberta. Fui posicionada sobre um dispositivo que captaria a área de interesse (no caso, a região lombar, que foi massacrada por um tampo de mármore no final de agosto deste ano e que ainda dói significativamente todos os dias, mesmo após tratamento), me deram fones de ouvido para abafar o barulho e uma campainha foi colocada na minha mão esquerda, para o caso de precisar interromper o exame.
A mesa deslizou aos solavancos para dentro do tubo (que não passa do maior ímã já visto na minha vida, pintado de branco, muito do futuro). Lá dentro, tudo muito branco, como se eu estivesse no céu ou dentro de uma cápsula de criogenia, pronta para abandonar o espaço dentro da Nostromo, tal qual a Ripley em Alien, obra prima da ficção científica cinematográfica. Tinha uma luzinha amarelada e a coisa começou a dar sono. Em dois minutos eu fiquei entediada e fechei os olhos. Três barulhos diferentes ressoaram na sala, saíndo do magneto, e eu achei que estava feito o exame, porque me foi dito que seria rápido.
Mas então o pesadelo começou. Os barulhos, após um longo período de silêncio e um movimento da cama para mais fundo na máquina, voltaram. Cada um durou MUITO mais tempo do que na primeira vez, com variações assustadoras de som, remixes horripilantes e minutos sem fim de imobilidade. Abri os olhos para tentar olhar em volta, mas era impossível. Tudo levou-me a acreditar que estava morrendo ou, pelo menos, derretendo. Sentia muito calor no tronco e muito frio na extremidade dos membros. A vontade de mijar e cagar eram quase incontroláveis. Até uma vontade de vomitar pintou por um instante. Mesmo sabendo que não podia me mexer, e mesmo se pudesse, acreditava que jamais poderia novamente. Não consegui apertar a campainha para interromper o exame. O pânico tomava conta de mim.
Passaram-se três dias dentro da máquina, e eu comecei a ouvir a moça falando comigo. Tentava olhar para baixo, mas só via branco. Para cima, só via parte do teto e o resto era máquina. Ela falava comigo, mas os barulhos não paravam. Cheguei à conclusão de que estava confundindo os barulhos da máquina com outros barulhos, e por momentos eu sentia minha vida saíndo de mim, como se eu estivesse caíndo no sono, ou entrando num torpor meditativo, sei lá, delirando. Eu mantinha os olhos abertos e tentava respirar calmamente, como se estivesse num treino do Tai Chi Chuan. As costas começaram a doer absurdamente, eu tentava conter o choro e relaxar, pois sentia que estava tensa e tremendo. Não queria me mexer muito para não comprometer o exame e ter que repetir. Tudo que eu queria era sair logo dali.
Levou muito tempo até que eu pudesse sair. Mil combinações de sons entraram pelos meus ouvidos, muito altas, pois os fones para quase nada servem. Estava quase vendo o momento do meu colapso dentro da ressonância magnética, como tantas vezes vi nos episódios de House. Quando os sons davam um tempo, eu sabia que logo viriam outros, pois era possível ouvir (talvez, não sei exatamente o que era) o ímã se movimentando logo abaixo de mim, se posicionando para o próximo take. De repente parou. E parou tudo. Tive que me segurar para não levantar antes da cama sair de dentro da máquina.
Quando a cama saiu, a moça falava comigo. Eu não conseguia ouvir ela falando. Esperei que ela tirasse o fone dos meus ouvidos e fui para a cabine colocar minhas roupas. No caminho, ouvi ela dizer: “Pode te vestir que eu já te encaminho até a saída”. Vai nessa, minha filha.
Me vesti tão rápido que nem lembro de me vestir. Saí antes mesmo que a moça voltasse e fui abrindo todas portas que encontrava. Me perdi dentro da clínica e o segurança teve que mostrar a saída. Numa sala de espera encontrei minha mãe e só consegui dizer: “Vamos logo”. Na rua, não conseguia chorar e nem respirar. Fiquei transtornada o sábado inteiro e não consigo falar sobre o assunto sem engasgar. Foram os 40 minutos mais longos da minha vida. Pior sensação ever.




















